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terça-feira, 18 de junho de 2013

As vozes e os gritos do povo

Juacy da Silva

O povo, principalmente as massas de trabalhadores, são transportados em ônibus, trens, metros, vans, lotações que mais se parecem com caminhões para transporte de gado, de animais, jamais seres humanos que merecem respeito e dignidade...

Quando Marx, Engels, Lenin, Mao Tsé Tung, Fidel Castro, Che Guevara e tantos outros revolucionários que escreveram ou agiram em prol das revoluções socialistas/comunistas que mudaram não apenas os regimes políticos, sociais e econômicos de seus países, mas também a configuração da política internacional jamais imaginaram que no futuro a mobilização das massas poderia ser realizada sem a direção de um partido que representasse os trabalhadores e as massas oprimidas, atualmente denominadas de “excluídos” e  que tudo isso pudesse ocorrer sem um substrato ideológico.

Graças às mudanças tecnológicas do final do século XX e início deste novo milênio como a televisão com abrangência internacional, a internet e  as redes de computadores,  em questão de minutos as notícias correm o mundo e também as pessoas podem ser mobilizadas de forma efetiva para protestarem contra qualquer coisa, inclusive contra governos opressores, corruptos e serviços públicos de má qualidade, corrupção nos aparelhos do Estado, brutalidade dos aparelhos de repressão do Estado, cargas tributárias que pesam exageradamente sobre os ombros e no bolso dos contribuintes ou simplesmente contra aumentos abusivos no preço das passagens.

Ao longo da história sempre que ocorreram grandes manifestações de massa os resultados foram e continuam imprevisíveis, inclusive a queda de governos e de regime. Assim aconteceu com as revoluções francesa, norte-americana, russa de 1917. Também no Brasil podemos identificar as grandes mudanças a favor e contra o governo João Goulart e a derrubada do Governo, a marcha pelas “diretas já” e o fim do regime militar, as manifestações dos “caras pintadas” e a renúncia/cassação de Collor e mais recentemente nas revoltas no mundo árabe.

A rebelião das massas pode tomar rumos que nem o governo e seus organismos de repressão ou nem mesmo os organizadores imaginam quando são iniciadas as mobilizações das grandes massas. Dependendo do nível de repressão/brutalidade por parte dos aparelhos do Estado uma manifestação que se inicia pacificamente pode descambar para uma violência generalizada.

No caso do que está acontecendo no Brasil neste momento a origem, o motivo inicial ou aparente foi o aumento abusivo das tarifas de transporte público que tem ocorrido nos últimos dois anos e a baixa/péssima qualidade deste serviço. O povo, principalmente as massas de trabalhadores, são transportados em ônibus, trens, metros, vans, lotações que mais se parecem com caminhões para transporte de gado, de animais, jamais seres humanos que merecem respeito e dignidade.

O setor de transporte público parece que é comandado não pelos poderes públicos concedentes, mas muito mais por máfias de criminosos que se digladiam por seus espaços e territórios, da mesma forma que acontece com o setor de lixo/resíduos sólidos, obras de infraestrutura. Na verdade, tais práticas (prorrogações de concessões de forma ilegal e ilícita, aumentos de tarifas sem levar em condição o valor do salário dos trabalhadores e a qualidade dos serviços prestados) ajudam a perpetuar os mesmos grupos neste setor. Parece que os governantes estão muito mais a serviço dos interesses dos grandes grupos econômicos (que financiam suas campanhas eleitorais e se tornam senhores dos governantes eleitos) do que dos reais interesses do povo.

Voltando aos tempos da internet , do facebook e de outras redes sociais e dos avanços tecnológicos na áreas da comunicação. Os protestos desta segunda feira (17 junho) em  mais de uma dezena de capitais, alguns com mais de 100 mil participantes já estão nas primeiras páginas de jornais, revistas e redes de TV no mundo todo, principalmente na Europa, nos EUA e até mesmo na China.

Além das fotos, incluindo cenas de brutalidade policial e de vandalismo por parte de alguns manifestantes, as análises desses veículos de comunicação também destacam que tais manifestações de massa não são apenas contra o aumento do preço das passagens de transporte urbano, mas sim também contra gastos perdulários dos Governos Federal e Estaduais com obras faraônicas da COPA, dezenas de bilhões de reais, enquanto a saúde, a educação, a segurança, o saneamento  e a infraestrutura geral e urbana vivem em completo caos e descaso por parte dos governantes.

A imagem que o mundo a cada dia tem sobre o Brasil é de um país dividido entre um grupo privilegiado que vive nababescamente enquanto milhões não tem moradia, saúde e segurança, e transporte e desfrutando de baixa qualidade de vida. Essas grandes massas soltaram suas vozes e seus gritos, cabe agora à elite dominante, os atuais donos do poder (que em passado recente também ajudaram a mobilizar as massas contra o regime militar, chegando até  mesmo pegar em armas para a derrubada do governo, promoveram guerrilhas urbanas e rurais) compreenderem que todas essas demandas devem ser atendidas enquanto é tempo.

As massas populares demoram para sair as ruas, mas muitas vezes só voltam para suas casas quando suas demandas são atendidas. O povo que protesta quer que seus direitos sejam  respeitados e que possa viver com dignidade. Isto não é exigir demais! Afinal são eleitores e contribuintes e merecem respeito por parte dos governantes!

JUACY DA SILVA, professor universitário UFMT, mestre em sociologia

Blog: www.professorjuacy@blogspot.com

A UM ANO DA COPA

José Antonio Lemos dos Santos

A iniciativa do Tribunal de Contas de Mato Grosso de acompanhar dia a dia tecnicamente as obras da Copa do Pantanal publicando a cada mês os resultados vem servindo como uma das referências da população quanto ao progresso na preparação da cidade para a Copa do Pantanal. Em um conjunto de obras com data marcada para inauguração não teria o menor sentido uma avaliação a posteriori do Tribunal, pois em caso de problemas o leite já estaria derramado. Nem teria igual credibilidade o mesmo tipo de trabalho apresentado pelo próprio órgão responsável pela execução das obras, a Secopa, que também foi sábio suspendendo a publicação de seus relatórios, evitando as divergências tão comuns em relatórios paralelos, que só confundiriam a opinião pública. O bom é que numa situação tão especial como a Copa, Cuiabá disponha de um relatório técnico mensal dos mais insuspeitos e confiáveis para o acompanhamento das obras. Nada pelo qual se possa por a mão no fogo, mas que em conjunto com o trabalho da imprensa serve como um bom referencial, cuja existência desconheço em outras sedes da Copa. 

     A leitura e divulgação desses relatórios exigem, entretanto, um cuidado especial, pois se referem a dados de um determinado mês que são analisados e processados no mês seguinte, e divulgados no início do segundo mês subsequente. Existirá sempre um espaço de tempo de no mínimo 1 mês entre o que está no relatório e a realidade vista pelo cidadão na obra, defasagem que pode chegar a 2 meses na véspera da apresentação do relatório seguinte. Agora, por exemplo, em meado de junho, o último relatório está defasado em 1 mês e meio em relação ao tempo real da obra e isso faz muita diferença em obras aceleradas. Esta observação em nada diminui a confiança nos relatórios mensais do TCE, visa apenas a ajudar a esclarecer o cidadão da razão das obras estarem geralmente à frente dos relatórios. 

     Pelos relatórios e o senso comum as obras avançam, ainda que em velocidades diferentes, com algumas poucas ainda nem iniciadas. O importante é que as obras fundamentais para o funcionamento da Copa do Pantanal estejam em condições de conclusão em tempo hábil. Segundo o último relatório referente a abril, a Arena Pantanal encontrava-se com um mês de atraso no cronograma e teve seu ritmo de obras acelerado com mais um turno de trabalho. Como a conclusão está prevista para outubro próximo, pode ser considerada uma obra sem problemas para a Copa e até mesmo para seu primeiro evento com a seleção brasileira na primeira quinzena de janeiro conforme anunciou domingo passado o secretário da Secopa. As obras do aeroporto estão aceleradas e já podem ser vistas em rápida evolução. A trincheira do Zero Km e o viaduto do Cristo Rei também avançam bem ainda que atrasadas. Atenção especial merecem os COTs, o Fan Park, obras de compromisso com a Fifa, e a ligação da Rua Antonio Dorileo com a Beira-Rio, essencial para aliviar o fluxo da Fernando Correia, cuja ponte sobre o Coxipó foi iniciada agora. 

     Importante é que a um ano da Copa as coisas parecem caminhar bem no sentido do grande legado de benfeitorias públicas e privadas para a cidade, ainda que demandando muito trabalho duro em turnos extras na maioria das obras. Parece inclusive que a população começa a acreditar nas estruturas que despontam, apesar dos transtornos, como bem mostrou neste domingo a Caminhada pela Copa organizada pela Secopa com mais de 14 mil pessoas, 11.500 inscritas quando a expectativa inicial era de 5 mil. Não é qualquer lero-lero que reúne o povo assim numa manhã de domingo com o sol cuiabano tinindo de bonito. Agora, temos a reta final de 1 ano exigindo muito mais sacrifícios, cobrança e trabalho. 

José Antonio Lemos dos Santos

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Marcha das Vadias reúne mulheres e homens em Cuiabá em protesto contra ‘cultura do estupro’

Marcha das Vadias reúne mulheres e homens em Cuiabá em protesto contra ‘cultura do estupro’
Mulheres e homens que não se conformam com o machismo e a chamada ‘cultura do estupro’ se reúnem para um protesto no próximo sábado (8) denominado Marcha das Vadias. Trata-se de uma manifestação feminista reivindicando liberdade e uma vida com menos violência, mas aberta ao público masculino.

A mobilização está marcada para as 15 horas na Praça Maria Taquara. A Marcha das Vadias é um movimento que acontece em várias capitais do País e originou-se em protesto às declarações de um policial do Canadá que queria negar proteção estatal a mulheres por conta de suas roupas, como se a violência ocorresse por conta das roupas, e não da relação de poder que se estabelece entre agressor e vítima.

Por este motivo é comum que durante o evento as manifestantes usem pouca roupa, seios pintados com frases de protesto, justamente em defesa da ideia de que as mulheres não podem sofrer violência, não importa qual roupa estejam usando, ou qual seja seu comportamento.

Esta será a segunda edição da Marcha das Vadias em Cuiabá, que no ano passado contou com participação de aproximadamente 400 manifestantes. Para 2013 a expectativa é que o número de participantes dobre.

O Brasil é o 7º país no ranking mundial de homicídios de mulheres, segundo o Conselho Nacional de Justiça. Em 65% dos casos de violência sexual, o estuprador era um parente ou conhecido da mulher.
Fonte: Olhar Direto

Várzea Grande quer revitalizar cidade com ajuda da Copa. Turismo é a aposta.

A cidade de Várzea Grande segue se preparando para a Copa do Mundo de 2014 que será realizada em Cuiabá. Vários projetos de potenciais turísticos estão sendo feitos pela prefeitura, que diz que a cidade não recebia a devida atenção neste quesito. A Rota do Peixe parece ser uma das grandes apostas da cidade para atrair os turistas.

Segundo o Secretário de Comunicação de Várzea Grande, Eduardo Ferreira, a prefeitura já está fazendo um mapeamento dos pontos. “A cidade tem um potencial fabuloso para ser explorado, infelizmente as gestões anteriores não deram a devida atenção. Era tudo largado”, disse ele se preocupando ainda com a falta de visibilidade do turismo.

Entre os projetos estão a revitalização das praças do município, que não irão apenas ganhar um novo visual, mas também, vão servir como local de encontro das pessoas, onde podem ser realizados eventos culturais, de lazer. “As praças ajudam a cidade a respirar” disse o secretário.

Ciclovias também estão sendo discutidas pela prefeitura, além de pontos que já estão na rota do turismo da cidade como Passagem da Conceição. “O carnaval bateu recorde de público e de atividade econômica, movimentou muito. Agora é o momento de adequar e prover a cidade uma boa infraestrutura”, afirmou Eduardo.

Parque com trilha suspensa na mata - Algumas ações já estão sendo executadas. Uma delas foi a implantação do parque Noise Curvo, nas proximidades da ponte Sérgio Mota. O bairro está recebendo um parque para caminhada de nível de primeiro mundo com um passeio sobre uma trilha suspensa nos moldes dos que são construidos em pontos turísticos da Europa. Além do passeio no bosque sem contato com o chão, os visitantes contarão com infraestrutura, incluindo estacionamento para carros, motos e bicicletas, box de comércio, quiosques de cantinas, banheiros e segurança. 


 O parque Noise Curvo contará com toda a infraestrutura para turismo e lazer em área privilegiada e próxima a Cuiabá
O parque Noise Curvo, ainda em fase de obras, vem sendo preparado para ser uma das surpresas com a marca da gestão do prefeito Walace Guimarães. A 'menina dos olhos' do prefeito, projetada para ser um dos principais parques de passeio da Grande Cuiabá, promete ser mais uma atração do município para a Copa do Mundo. Essa obra deve ser entregue nos próximos meses.

Sobre a criação de um local para a população assistir aos jogos, o secretário disse que o Fan Park construído em Cuiabá pode servir muito bem as duas cidades, lembrando ainda que ele fica mais perto de Várzea Grande do que de muitos bairros da capital. “Também sugerimos a criação de uma espécie de “mini Fan Park” no município”, revelou ele

Eduardo finalizou dizendo que a cidade precisa crescer independente da sua vizinha. “Queremos uma independência de Várzea Grande, queremos ter um sentido próprio, pois temos características muito específicas, apesar de termos os mesmo problemas que Cuiabá”.

Fonte: Olhar Direto

terça-feira, 7 de maio de 2013

Consórcio prevê que obras do VLT vão “parar” Cuiabá

O gerente de contrato do Consórcio VLT Cuiabá, engenheiro civil Fernando Orsini, reafirmou a previsão de conclusão das obras de implantação do Veículo Leve sobre Trilhos na Grande Cuiabá em março de 2014, conforme o cronograma já divulgado pelo Governo do Estado.

“É possível concluir a obra até março de 2014. Nós temos um compromisso e um contrato com o Governo do Estado, que tem que ser cumprido e assim nós estamos fazendo”, afirmou.

Para garantir que o prazo seja cumprido, o consórcio já se prepara para trabalhar, simultaneamente, nos 22,2 km de trajeto do VLT, a partir de julho deste ano. Como isso, a previsão é de que as obras vão “parar” o trânsito nas principais avenidas da região metropolitana de Cuiabá.
"A partir de julho, os 22 km estarão passando por intervenções. Não tem como avançar as obras de outra forma. O nosso prazo é extremamente desafiador e nós não podemos atuar em trechos. Vamos ter que parar mesmo, parar tudo"
“A partir de julho, os 22 km estarão passando por intervenções. Não tem como avançar as obras de outra forma. O nosso prazo é extremamente desafiador e nós não podemos atuar em trechos. Vamos ter que parar mesmo, parar tudo”, disse Orsini, em entrevista ao MidiaNews.

Segundo o engenheiro, com o fim das chuvas, inicia-se o processo de "pico" da obra, que deve durar de maio até dezembro deste ano, e se baseia essencialmente em processos de escavações, terraplanagem e pavimentação.

Para evitar transtornos, Orsini pede aos motoristas para que evitem as principais avenidas de Cuiabá e Várzea Grande, onde o VLT estará sendo implantado, e façam uso das rotas alternativas já aprovadas pela Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes Urbanos (SMTU), em Cuiabá, e pela Secretaria de Infraestrutura de Várzea Grande.

“As pessoas vão ter que usar as rotas alternativas e nós temos recomendado para que os motoristas não usem as grandes vias nos horários de pico, porque as obras do VLT passam pelas principais vias de Cuiabá e de Várzea Grande e, efetivamente, o trânsito estará congestionado nessas artérias”, afirmou.

Avanço das obras


Atualmente, as frentes do VLT se encontram, em Cuiabá, na construção dos viadutos da UFMT e da MT-040, na Avenida Fernando Corrêa da Costa, e do Viaduto da Sefaz, na Avenida do CPA; no reforço do Canal da Prainha, na Avenida Tenente-Coronel Duarte; e na adequação da Avenida Coronel Escolástico, para implantação dos trilhos do VLT.

Já em Várzea Grande, tiveram início as obras de construção da Trincheira do KM Zero, na Avenida da FEB; do Viaduto do Aeroporto, na Avenida João Ponce de Arruda; e do Centro de Comando, Controle e Manutenção do VLT, na área onde se localizava a Vila Militar (ao lado do Aeroporto Internacional Marechal Rondon).

Segundo Orsini, a próxima interdição a ser feita pelo VLT será na Avenida Fernando Corrêa da Costa, para a implantação da via permanente e alargamento das vias.

O gerente do contrato do VLT assumiu, ainda, que as obras na Avenida Coronel escolástico encontram-se lentas.

“Está um pouco lento porque lá nós temos um problema ainda de liberação de resgate arqueológico”, explicou.
"Hoje, nós estamos com mil pessoas distribuídas em várias frentes. Mas, o pico prevê 2,5 mil pessoas, durante junho e julho"
Quanto ao quadro de pessoal trabalhando nos canteiros de obras do VLT, Orsini diz que o número atual deve dobrar dentro dos próximos meses.

“Hoje, nós estamos com mil pessoas distribuídas em várias frentes. Mas, o pico prevê 2,5 mil pessoas durante junho e julho”, disse.

Vagões e trilhos

Segundo a Secopa, dois dos 40 carros que compõem o VLT de Cuiabá devem chegar à Capital entre o final de julho e o início de agosto deste ano.

Formados por sete módulos cada um e com capacidade para transportar até 400 passageiros por carro, os veículos estão sendo construídos na Espanha e começam a ser enviados para o Brasil ainda em maio próximo.

A obra


Previsto para ser implantado em dois eixos (CPA-Aeroporto e Coxipó-Centro), que somam 22,2 km de extensão, o VLT deverá passar pelos canteiros centrais das principais avenidas de Cuiabá e Várzea Grande: Historiador Rubens de Mendonça (Avenida do CPA), FEB, XV de Novembro, Tenente-Coronel Duarte (Prainha), Coronel Escolástico e Fernando Corrêa da Costa.

O VLT contará com três terminais de integração e 33 estações de embarque e desembarque, com distância média de 600 metros entre um ponto e outro.

Fonte: Midia News

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Os três artigos da Lei do mais forte no trânsito

A LEI DO MAIS FORTE E O DESEJO DE MUDANÇA


E. J. Daros


A melhor forma de se conhecer um povo é observando e analisando seu comportamento no dia-a-dia, principalmente em situações de conflito. A partir da observação empírica, procura-se descobrir as regras de convivência social e a hierarquia dos valores sobre a qual se estrutura a personalidade e o comportamento dos indivíduos.


Importante, também, é se conhecer o grau de esquizofrenia prevalecente na sociedade. Para isso nada melhor do que comparar a realidade vivida e sentida por meio da observação empírica, com as leis, regulamentos e valores constantes de textos escritos.


Faz muito tempo que observo, com a máxima atenção, e o mais profundamente possível, nosso comportamento, isto é, meu comportamento e o das pessoas com quem me relaciono no dia-a-dia. Por razões de trabalho, tenho tido a oportunidade de conhecer pessoas de todas as regiões do País e de diferentes camadas sociais. Mais recentemente, na condição de fundador e presidente da Associação Brasileira de Pedestres–Abraspe, passei a pesquisar as causas mais remotas da chamada violência no trânsito.


Depois de muito pensar e observar cheguei à LEI DO MAIS FORTE. A importância dessa Lei já é conhecida pelo povo brasileiro desde tempos remotos. Ela está na raiz e na origem de nossa cultura. Todas as outras leis e regulamentos são-lhe hierarquicamente inferiores. Na realidade, a Lei do Mais Forte está inserida na Constituição Invisível que rege soberanamente nossas relações sociais. São três artigos que devem ser analisados e bem entendidos pelos cidadãos para não sofrerem as conseqüências de sua desobediência.


Artº 1º: Nas soluções de conflito entre pessoas e grupos prevalecem os interesses do mais forte;


Artº 2º: Os direitos do mais fraco podem ser exercidos desde que não prejudiquem os interesses do mais forte;


Artº 3º: O mais fraco deve tomar rapidamente consciência de sua situação, a fim de evitar conflitos que possam obrigar o mais forte ao uso da violência física ou psicológica no cumprimento do Art.º 1º.


Ao ler esses três artigos da Constituição Invisível de nosso povo, há uma tendência de se estereotipar a sociedade em duas classes: os opressores e os oprimidos; e com isso, perde-se a visão objetiva da realidade, em que os papéis de forte e de fraco se alternam num mesmo indivíduo. É óbvio que certas pessoas, normalmente pertencentes às classes sociais de renda baixa, representam mais freqüentemente o papel de fraco e, as de renda mais alta, o papel de forte. Porém, certos tipos de relacionamento, dentro da mesma classe social e, em muitos casos, no seio da própria família, demonstram, claramente, que a Lei do Mais Forte se aplica a todos os cidadãos, independentemente da classe a que pertencem.


Os liberais, os humanistas, as feministas, os democratas, e outros que insistem em certas teses igualitárias acabam gerando leis e regulamentos “inconstitucionais”. Em decorrência disso ficam nas prateleiras, pouco ou nada influindo sobre a nossa realidade.


Os conflitos gerados no trânsito e a forma de solucioná-los são um bom exemplo para demonstrar a validade da Lei do Mais Forte.


Antes de apresentar dois exemplos de aplicação dessa Lei é importante não esquecer que as outras leis e regulamentos são-lhe hierarquicamente inferiores. Por conseguinte, o cidadão comum encara os regulamentos de trânsito como uma simples proposta de solução de conflitos, e não como regras a serem obedecidas em qualquer hipótese. Elas são respeitadas, portanto, quando convém ao mais forte. Os exemplos a seguir ilustram bem essa situação.


Sinalização de Pedestres


Ela é respeitada pelo motorista quando há risco de se chocar com outros veículos (cruzamentos) ou quando a massa de pedestres é muito grande, gerando um equilíbrio de forças. Se o volume de pedestres for exageradamente grande, de fraco, passa a forte, invadindo a via pública, em detrimento da circulação dos veículos.


No caso de São Paulo os veículos param nos cruzamentos (risco de batida!) , porém em cima das faixas de pedestres (quando o volume de pedestres é pequeno) , porque o semáforo fica depois do cruzamento e nessa condição podem ver a troca de sinal. No Rio de Janeiro, os motoristas não param em cima da faixa de pedestres, porque o semáforo fica antes do cruzamento e se nela estacionassem perderiam a visão da troca de sinal (risco de batida).


Consequentemente, é o medo de bater em outro veículo que faz o motorista parar nos cruzamentos, e não o respeito ao pedestre.


Fora dos cruzamentos, a sinalização de pedestres é normalmente desrespeitada. Nesses casos, os atropelamentos não acontecem com mais freqüência em razão da aplicação dos artigos 2º e 3º da Lei do Mais Forte.


Quando o motorista acena para o pedestre amedrontado cruzar a rua, ele está pondo em prática o artigo 2º, que reza: “Os direitos do mais fraco (no caso o pedestre) podem ser exercidos desde que não prejudiquem os interesses do mais forte (no caso o motorista)”. Seja porque não está com pressa, ou porque deseja ser bondoso, há muitos casos de motoristas que acenam aos pedestres nesses cruzamentos, permitindo-lhes exercer os direitos previstos nos regulamentos de trânsito.



Quando os pedestres esperam que todos os carros apressados passem e aguardam que os demais parem, para depois iniciar a travessia, mesmo que o sinal lhe autorize a fazê-lo antes, eles estão sabiamente aplicando o artigo 3º, que diz:


“O mais fraco (no caso o pedestre) deve tomar rapidamente consciência de sua situação a fim de evitar conflitos que possam obrigar o mais forte (no caso o motorista) ao uso da violência física ou psicológica no cumprimento do artigo 1º .


Trânsito nas Rodovias



Na estrada, a hierarquia de poder é bem definida: caminhões e ônibus, de um lado, e automóveis, do outro. Normalmente, o motorista de automóvel inteligente, após dar sinal de luz e buzinar, aceita eventuais obstruções de caminhões e ônibus ( Art.º 3º ) e aguarda a aquiescência para completar a passagem ( Art.º 2º ) .


Acredito que os dois exemplos acima sirvam para ilustrar a universalidade da Lei do Mais Forte no trânsito de nosso país. Como substituí-la, então, por leis e regras de uma sociedade democrática, igualitária e mais humana?


Há dois caminhos: o primeiro, o mais fácil de ser trilhado, é inundar a Nação de textos humanistas, democráticos e igualitários; o segundo, extremamente difícil e doloroso, é reconhecer nossa condição pessoal (não a dos outros!) de antidemocrata, e, porque não, anticristã, e de cultor anônimo da Lei do Mais Forte.


A Constituição visível é mais fácil de mudar que a invisível. O exorcismo de nossos males através de bodes expiatórios nos afasta da visão deprimente de nossos próprios valores e comportamento. A violência no trânsito, a corrupção desenfreada, a desonestidade profissional, a poluição, a estruturação de nossa economia com base em monopólios, os abusos de poder e tantos outros males que nos afetam são gerados por nós, cada um contribuindo com sua parcela.


Como no trânsito pouco ou nada mudou, e nele se expressam os valores e o comportamento da população que também estão presentes em todas as outras relações fora do trânsito, o nosso país continua o mesmo.


Uma outra forma de fugir à mudança real é atribuir ao Estado a responsabilidade pela mudança. E não faltam falsos líderes, sequiosos de poder, para assumir essa responsabilidade, mesmo sabendo que não têm condições de desempenhá-la.


Será que está na hora de mudar mesmo? E acabar com os falsos líderes que a título de pensamento positivo só elogiam as qualidades do povo brasileiro, para em seguida explorá-lo, aplicando-lhe a Lei do Mais Forte?


F I M



Nota: Artigo Publicado em Idéias em Debate em O Estado de S. Paulo de 16/03/85